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Entrevistas - 26.06.2017

Partilhando a dádiva da escrita, a Montblanc assinala um novo capítulo na parceria com a UNICEF. A Maison reafirma o seu apoio à alfabetização e à educação infantil com uma coleção de edição limitada que apoia o trabalho da UNICEF em todo o mundo com o objetivo de superar o problema real que representa o fato de que a 1 em cada 11 crianças em idade escolar lhes continua a ser negado o direito à educação.

Por ocasião do seu lançamento, em maio, o Diretor Criativo da Montblanc Zaim Kamal veio até Lisboa. E recebeu-nos numa agradável conversa…

 

A moda vive da mudança, rápida e constante. Contudo, nas marcas de luxo, os objetos tendem a ser intemporais. Como se desenvolve o processo criativo numa maison como a Montblanc?

Na moda, quando se cria uma coleção, e não estou a falar de agora, mas quando costumávamos fazer apenas duas ou três coleções, apresentava-se alguma coisa e se não se obtinhao que se pretendia, seis meses depois podia-se começar tudo de novo. Numa casa como a Montblanc, tem que se pensar em ir mais além. Apenas aplicamos uma tendência se a virmos em objetividade, se vemos que há uma mudança. Por exemplo, quando começámos a fazer mochilas, sabíamos que isso era algo que estava a chegar, que seria uma tendência, mas também sabíamos que o iria ser por um longo período de tempo. Então, quando criámos uma linha própria na Montblanc, uma linha de couro. Já num instrumento de escrita, pensamos: como vamos tocá-lo daqui a três anos? O que vai mudar? Quais são os limites que precisam de ser ultrapassados? Então, temos de perceber constantemente onde se está e para onde se vai. E também temos de ter em conta que os nossos instrumentos de escrita levam dois anos a desenvolver. Assim, quando desenvolvemos algo no momento, tal só vai acontecer dentro de um par de anos. Algo que se esteja a ver agora, foi um projeto apresentado há dois anos atrás. Ora, devido a isso temos que ser muito mais preditivos, mas, ao mesmo tempo, muito mais seguros da tomada de decisões. Porque para perceber o nosso produto, há que entender o nosso cliente e entender o mundo em que ele se encontra. Então, com estes três elementos juntos, analisamos tudo muito bem. Nós sempre temos que analisar e entender constantemente o caminho do mundo.

 

Trabalhou com marcas como Vivienne Westwood e Swarovski. Que legado trouxe desse seu passado na moda para a Montblanc?

Swarovski e Vivienne são a influência de muitos intermediários. Nunca perca a curiosidade, tenha sempre a mente aberta, nunca se feche ao conhecimento, nunca se esqueça de onde está. Inspiração não é algo com que se acorda de manhã. Não. Inspiração acontece a cada dia quando interagimos com o mundo. É a minha primeira vez em Lisboa, estou a conversar consigo, que colabora numa revista que está em Angola e Portugal. Então, para mim, a inspiração pode estar a acontecer agora ... Eu vejo o seu estilo, os seus óculos, sinto a conexão entre a prata e o ouro juntos. Ora, todos esses pequenos detalhes são inspiração. E é isto o que eu quero dizer. Nunca pare de aprender, de avançar.

 

O que mais o inspira, na altura de conceber uma linha?

Pensar em para quem estamos a fazer. Este é o ponto de partida da maison e é muito importante. Estamos constantemente a analisar o nosso cliente, temos sempre em vista para quem estamos a trabalhar. Quando olhamos para o passado, os empresários da geração do meu pai, às segundas-feiras eles tinham roupas cinzas e uma pasta, ena sexta-feira eles mudavam a roupa a pensar no fim de semana. Isso já não acontece hoje em dia. E em três anos também vai mudar. O mundo está a mudar. Então, precisamos entender para quem estamos a trabalhar. Se eu conceber uma linha no presente, com a minha equipa, precisamos perceber dentro de dois anos quem irá comprá-la. Pensamos no futuro empresário. Esse é o ponto de partida. Onde ele vive, como ele trabalha, como ele come, como ele joga, como ele viaja, pensamos em todos esses aspetos. E, então, precisamos entender quais são as funcionalidades de que ele precisa.

 

Quando pensamos em Montblanc, pensamos em instrumentos de escrita de luxo, mas a Montblanc é muito mais do que isso. Na sua perspetiva, o que tem sido feito para que o cliente tenha a perceção de uma marca mais abrangente?

Nós nascemos de instrumentos de escrita, mas o que muitas pessoas não sabem é que o couro é a nossa segunda categoria. Em 1926, lançámos a nossa primeira coleção em pele. Basicamente, cobrimos o universo das funcionalidades do homem de negócios.Pensamos nas necessidades profissionais dele logo pela manhã, quais são as ferramentas de que ele precisa e é assim que os produtos vão nascendo. Ao início, ele precisava de uma pasta, uma carteira e um relógio. Hoje, ele precisa de instrumentos de escrita, de um caderno… Nós concebemos aquilo que alguém precisa para os seus negócios. Foi assim que as nossas quatro categorias surgiram. Porque queríamos cobrir as necessidades de um empresário, de um profissional. Hoje em dia, podemos chegar a uma reunião em ténis, jeans e um blazer e ainda uma mochila, e podemos sentar-nos com alguém que usa um fato de três peças. E ninguém se sente desconfortável. Porque, atualmente, já não é tanto a aparência que é importante, é mais a pessoa. E nós fornecemos companheiros para essa pessoa. O que chamamos de “bons companheiros de vida”. Usar um instrumento de escrita Montblanc não me torna um melhor designer, mas eu sei que ele não me vai falhar, que eu posso contar com ele e que, quando eu o abrir, ele funciona. E isso permite-me fazer o meu trabalho de maneira mais fácil.

 

Há quinhentas boutiques em todo o mundo. Como pensa e adequa a estética da marca face à globalidade da mesma?

Isso é algo que eu aprendi no mundo da moda. Quando costumávamos fazer as coleções, na década de 90, precisávamos de fazer uma coleção chinesa, uma coleção americana, uma coleção francesa… porque todos os gostos eram diferentes. Hoje em dia, quando analisamos os nossos clientes, encontramos tribos, grupos. E uma vez que começamos a analisar as necessidades de certas tribos, descobrimos que, se alguém pertence a uma tribo, não tem nada a ver com o facto onde ele vive. Ele pode morar em Xangai, ele pode morar em Lisboa, pode morar em Paris ou em Londres. As suas necessidades serão sempre as mesmas. Isso permite-nos fazer coleções sempre mais universais. Podemos lançar uma mochila que vai estar em quinhentas lojas em todo o mundo. Isso tem um impacto muito forte. Então, esse conhecimento tribal dá-nos as diferenças e as funcionalidades dessas tribos.

 

Tendo em conta os vários segmentos de negócio da Montblanc, quais deles exigem maior esforço por parte do processo criativo?

Eu diria que nós colocamos o mesmo esforço em projetar um instrumento de escrita ou um relógio. A complexidade é que difere. Abordamos um relógio de um ponto de vista diferente. Pensamos no movimento, no mostrador... é um objeto muito mecânico. Já um instrumento de escrita, é um objeto mais de engenharia. Um engenheiro em Hamburgo e um relojoeiro têm uma maneira muito específica de trabalhar. Quem faz relógios, pensa de forma diferente, pensa sobre o movimento e o funcionamento mecânico em conjunto. É, claro, uma complexidade diferente, mas tem de se fazer o mesmo esforço. O couro também tem a sua própria maneira de trabalhar. A complexidade varia, mas a paixão continua a ser a mesma.

 

O que é luxo para si?

Quando se pergunta às pessoas sobre o luxo, elas mencionam preço, material, artesanato. Para mim, materiais e artesanato são fatores de luxo, mas ao comprarmos um produto Montblanc não questionamos o artesanato, nem os materiais. Para mim, o luxo é o tempo, é a paixão, o conhecimento e o sangue que uma pessoa coloca para aprender as habilidades para criar esse objeto. Esse é o verdadeiro luxo para mim, essa é a beleza disso. Por exemplo, quando vi uma senhora a fazer parte de um instrumento de escrita à mão, e vi o quão rápido ela o fazia, perguntei-lhe como é que ela faziatal. E ela respondeu-me que leva anos e anos naquilo, e vai achando novas maneiras de o fazer.  Isto é paixão. Isso é, para mim, um luxo.

 

A Montblanc apresentou o Summit, o seu primeiro relógio inteligente, tornando-se na primeira marca de alta relojoaria a entrar no universo dos smartwatches. O que acha que tal pode representar? Onde a marca quer chegar?

O Summit não foi o ponto de partida. O Summit é a continuação de uma estratégia iniciada em 2013, quando analisámos o nosso cliente. Percebemos que ele estava cada vez mais conectado. E não lhe podíamos dizer "não vai conseguir esse produto Montblanc", então, preferimos dizer que lhe daremos uma escolha. Depois, trouxemos a correia eletrônica, que era basicamente um dispositivo que estava no pulso e conectado ao relógio mecânico. Por último, trouxemos o Augmented Paper, que permite usar a tinta do instrumento de escrita Montblanc no papel Montblanc. Portanto, temos todas as vantagens digitais ao nosso alcance. Summit é apenas uma evolução natural disso. Porém, com todos estes produtos nunca esquecemos o mais importante na Montblanc. É o process de fabrico. O Screen writer estava ligado ao instrumento de escrita Starwalker, a correia eletrónica estava conectada com o relógio mecânico, o Augmented Paper tinha novamente o instrumento Starwalker. E o papel Montblanc que foi desenvolvido, assim como o envelope em couro Montblanc.

Portanto, a Montblanc oferece ferramentas para tudo, é o cliente que tem de fazer o equilíbrio. Nós proporcionamos a escolha, o cliente é quem faz o seu próprio companheiro. Estamos a criar bons companheiros. Eles estão lá quando mais se precisa e quanto mais os usar, mais se tornam seus.

 

A Montblanc revelou o seu novo capítulo com a UNICEF – uma parceria beneficente que já dura há treze anos. Em que consiste a coleção? E como encara este lado social da marca.

A parceria com a UNICEF é muito importante e a Montblanc contribui com doações bastante substanciais. É o facto de se tratar de uma cultura da escrita. Escrever significa comunicar, entender e transmitir conhecimento. Cultura significa experimentar, ver e fazer interpretação de uma certa maneira, seja através da escrita, literatura, arteou encontro social. Então, é uma parte muito forte da nossa herança. Precisamos passar os conhecimentos para a próxima geração. E quando olhámos para os objetivos da UNICEF, que nos diz que todas as crianças têm direito a uma educação, começámos a projetar esta coleção com base nesse conceito. Quando é que a jornada no conhecimento de uma criança se inicia? Começa quando uma criança aprende e entende a língua que fala. Ao colocar esta nossa coleção da UNICEF em lojas de todo o mundo, estamos a transmitir a ideia de comunicação, aprendendo uns dos outros e também descodificando o outro. Então, é uma parte muito importante. Já faz parte da nossa cultura.

 

E para si? O que representa para esta faceta humanitária da Montblanc?

Eu tenho filhos. E, para mim, é como se tivéssemos uma responsabilidade como Maison, porque temos uma voz para contribuir com alguns aspetos que são naturais para nós. Pessoalmente, é muito importante, porque para mim o conhecimento é algo que nunca pode parar. No momento em que paro de aprender ou de adquirir conhecimento, estou termino. Todos os dias, aprendo algo, mas essa aprendizagem constante e essa compreensão sobre como avançar, tem de ser passada. Não gosto de manter todo o meu conhecimento apenas para mim. Ao estar a falar consigo, estou a transferir o que eu sei, assim como o vou transferindo para os meus filhos. Para mim, trata-se de aprender, entender, transmitir. É um fluxo constante. E espero que outras pessoas façam o mesmo também.Não podemos mudar o mundo sozinhos, mas juntos podemos contribuir para que seja, pelo menos, mais compreensível.

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