Entrevistas - 21.11.2016

Ao falar de moda é incontornável não lembrar a “Rainha das Passarelles”, que foi o exponente máximo do mundo «fashion» em Angola e Portugal. Nayma Mingas, conhecida pelo grande público, fala-nos um pouco sobre o seu trajeto de vida…

Entrou no mundo da moda aos 16 anos. Como é que surge esta oportunidade?
A minha história não difere muito da maior parte das minhas colegas... Fui abordada pelo modelo e mais tarde meu formador, João Carlos, durante uma festa de Carnaval e convidada a ingressar o seu curso de formação de modelos.

 

Disse, em várias entrevistas, que no auge da sua adolescência e juventude não se sentia bonita. O mundo da moda ofereceu-lhe a auto-estima de que necessitava?
Claro! Mas ajudou a resolver a minha autoestima de adolescente. Hoje, o que considerava ser importante aos 15/16 anos não tem o mesmo peso. O que de facto a Moda me proporcionou, foi uma maior segurança em relação à minha personalidade e desenvoltura, pois comecei bastante nova e acreditem, era muito tímida. Sempre fui muito «maria-rapaz» e isso fazia com que não fosse o foco de atenção do sexo oposto, o que, aos 15 anos, não é a melhor coisa que nos pode acontecer... E isso levou-me, na época, não a ter uma baixa autoestima, mas a não depender da minha aparência. Obviamente, foi para mim uma surpresa o convite para tornar-me manequim e, mais tarde, quando comecei a ser chamada de «Pantera», «Rainha das Passerelles» e a ser notícia em revistas, ver a forma como era admirada. Durante muito tempo, não soube lidar com isso, pois foi uma mudança muito brusca relativamente ao que estava habituada. Contudo, o ser a mais bonita ou a mais atraente nunca foi o meu objetivo. O meu objetivo inicial, como modelo, era tornar-me numa profissional reconhecida e, acima de tudo, trabalhar com os melhores, o que para minha sorte acabou por acontecer. Hoje, foco-me mais na minha personalidade, nos meus valores e na minha postura social. Claro que não sou indiferente à beleza, porque, tal como escreveu o poeta Vinícius de Moraes: «(...) A beleza é essencial». Mas é também importante saber de que beleza falamos...

 

Que dificuldades encontrou no mundo da moda?
Algumas, que inicialmente me chocaram, pois eram baseadas no preconceito. Mas não tiveram muito peso, pois a aceitação do mercado, de um modo geral, foi maior que a rejeição. Por isso, hoje aqui estou.

 

Algum criador de moda que tenha assumido uma importância especial na sua carreira?
Com tantos anos de carreira, é muito difícil determinar apenas um e seria injusto compará-los. O nosso trabalho está dependente não apenas dos designers, mas igualmente de toda a equipa de bastidores e produção. Todos os designers com quem trabalhei marcaram-me de diferentes formas e aqueles com quem lido de forma mais constante têm características muito distintas e, com eles, vivo momentos incomparáveis.

 

Desfilou ao lado de modelos como Claudia Schiffer, Carla Bruni e Helena Christensen. Foi uma das modelos mais premiadas e consagradas na Moda, em Portugal e Angola. Algum objetivo ou sonho que ficou por cumprir, enquanto modelo?
Não. Sou muito grata e abençoada e feliz com a carreira e nome que criei, que serviu de exemplo e abriu muitas portas às modelos negras da nova geração. Muitas vezes, olho para os inúmeros reconhecimentos que tenho recebido desde o início da minha carreira e chego a pasmar-me. Nunca acreditei ir tão longe e conquistar tanto numa época tão difícil para as manequins negras. O que não quer dizer que não seja ambiciosa e que não lute pelos meus sonhos. Nesse sentido, não exijo, nem peço favores, mas trabalho para os conquistar e, acima de tudo, para ser reconhecida pela qualidade e profissionalismo. Obviamente, tenho sonhos, mas não estão todos única e exclusivamente ligados à Nayma Mingas, modelo. Evidentemente, tenho consciência que a «Nayma» é uma marca e é nesse sentido que atualmente trabalho. Por isso, talvez hoje goste mais do lema: «O que tiver de ser, será».

 

Quais os segredos para uma carreira tão consistente?
Profissionalismo, acima de tudo. Independentemente de termos características que nos permitam destacarmo-nos num determinado grupo, se não formos profissionais e respeitadores do nosso trabalho, não alcançamos os nossos objetivos. De igual forma, acredito que gostarmos do que fazemos e termos um conhecimento profundo sobre Moda é igualmente importante. Não acredito na longevidade de uma modelo que esteja em Moda apenas pela fama e/ou para aparecer em capas de revistas. Qualquer modelo que assim esteja perante a Moda provavelmente não terá uma carreira longa, pois não obterá o respeito dos diversos profissionais do meio e, consequentemente, será apenas uma tendência e não se destacará por muito tempo.

 

Apresentou o programa «Projecto Moda», na RTP 1, foi júri do Elite Model Look, em Portugal e Angola e estudou Design. A Moda é, definitivamente, a sua vida?
Não só a Moda... A minha vida é Arte, em todas as suas vertentes. Por exemplo, uma das minhas grandes paixões é desenhar. Contudo, creio que a minha educação teve um papel fundamental nesta minha preferência. Por um lado, o meu pai - figura mais destacada pela sua muito conhecida carreira musical, por outro lado a minha mãe, igualmente apaixonada por música, mas também com uma família mais virada para as Artes Plásticas. Faço sempre questão de referir as minhas Avós Carlota, Celeste, Yolanda e Elizabeth (todas irmãs da minha Avó materna), que foram as que me introduziram na pintura, costura, modelagem, bordados e croché; e os tios Óscar e Belisa, com o desenho. Consequentemente, depois desta influência familiar, desde muito nova, olho para o Design de Moda de forma respeitadora, profissional e, claro, muito apaixonada. Espero nunca ter de prescindir da Arte como forma de vida, pois é ela que, sem dúvida, mais me empolga e satisfaz tanto a nível pessoal, como criativo.

 

É filha de Ruy Mingas, cantor angolano, que também foi embaixador de Angola em Portugal, e de Julieta Branco Lima Mingas. Chegou, inclusive, a gravar uma canção para o projeto MDA. A música era algo que ambicionava fazer ou foi uma questão de influência?
Posso dizer que ambas. Crescer no seio de uma família de músicos, leva-nos, sem dúvida, a ter uma adoração por música, muitas vezes vista quase como fanatismo. No meu caso, não é diferente, tanto que a maior coleção que tenho em casa é de música. Os meus amigos já confessaram que não me oferecem música, porque consideram ser praticamente impossível surpreender-me. E sim, isso é o mais provável... Quando jovem adolescente, que consumia vídeo clipes em «loop» frenético, sonhava em estar com os palcos e «vídeo clips». Acho que todos os jovens apaixonados por música sonham o mesmo. Mas, como costumo dizer, sou abençoada e, mesmo não tendo realizado esse sonho de fazer carreira na música, acabei por vê-lo, de certa forma, eternizado ao ter sido escolhida para dar a minha voz à Princesa Tiana, do filme «A Princesa e o Sapo». Foi dos projetos mais satisfatórios em que participei, pois pude realizar vários sonhos ao mesmo tempo. Fazer parte da história do maior grupo de animação do mundo, representar a primeira princesa negra da história da Disney e cantar.

 

Já lançou livros, foi apresentadora de televisão, júri, deu voz a personagens de desenhos animados, foi modelo e cantora. Alguma faceta ainda por revelar?
Tantas… Os meus amigos dizem que tenho um «bicho carpinteiro» que está sempre a pensar e a ter ideias sobre o que fazer a seguir. Mas, cada vez mais, acredito que o segredo é a verdadeira alma do negócio. Neste momento, a experiência mais recente passou por participar no filme «A Canção de Lisboa» do Pedro Varela, que para além de ter sido a minha primeira experiência cinematográfica, foi muito rica pelo desafio e aprendizagem, ao longo de todo o processo que envolveu um elenco de atores renomados.

 

Hoje, divide o seu coração e o tempo entre Angola e Portugal. Como é que as culturas portuguesa e angolana estão representadas no seu dia-a-dia?
Tanto a portuguesa, como a angolana são presenças fortes, pois desde a minha adolescência vivo entre os dois países. Consequência da consanguinidade e educação familiar, no meu dia-a-dia o reflexo de ambas é constante. Por exemplo, a primeira coisa que faço mal chegue a Angola ou Portugal é comer um prato típico do país. Muitas vezes, chego a encomendar determinado prato na véspera da viagem para garantir poder matar as saudades. A verdade é que ambos os países estão extremamente enraizados em mim.

 

A atravessar uma nova fase da sua vida, como encara, hoje, a beleza da mulher?
Em relação à beleza, de um modo geral, creio que fazemos parte de uma época em que os conceitos desta estão a mudar. A forma como a mulher é vista socialmente e a forma como a mesma se vê e auto-analisa hoje, é completamente diferente da de algumas décadas. As mulheres hoje estão mais livres, donas de si e capazes de o provar sem depender de estereótipos e/ou opiniões alheias. Isso é positivo, pois vemos mulheres mais seguras dos seus cabelos brancos, estrias, rugas, etc. Há 40 anos, as mulheres viviam sob um crivo e escrutínio sexista extremamente agressivo. Sendo que não pertenço a essa geração, agradeço a todas as mulheres feministas que lutaram pelos direitos das mulheres, que nos permite hoje ter uma postura e aceitação social completamente distinta.

Por isso, os meus conceitos de beleza são mais amplos, pois considero que esta é variável e condicionada a fatores de vária ordem: étnicos e genéticos; hábitos alimentares e estilo de vida. Esta forma de ver as coisas ao longo do tempo também é aplicável ao que se passa em cada um de nós. Não comparo ninguém de etnias, idades e tipo de vidas distintas. Faço sempre por ter em conta estes fatores, para a minha avaliação pessoal, pois o que pode ser visto como belo em Portugal, pode ser tido como não belo noutro país. E quem sou eu para dizer o contrário? Por isso, creio que não devemos definir estereótipos de beleza. Não devemos avaliar nenhum indivíduo, sem antes conhecermos o seu estilo de vida. Não podemos comparar a pele de quem trabalha no campo, ao sol, à pele de quem trabalha em escritórios fechados e climatizados. Não podemos comparar o corpo de uma mulher ou homem de 20 com o corpo de uma mulher ou homem de 40, 50, 60 anos, sendo que há vários fatores que determinam o nosso aspeto ao longo dos tempos. Por outro lado, a beleza padronizada e estereotipada está muito condicionada aos objetivos dessa avaliação, que servem determinados propósitos. Portanto, a generalização destes propósitos, numa avaliação geral, é, no mínimo, injusta.

 

E a sua? Tem algum ritual de beleza?
Atualmente, encaro-me como sendo o fruto de toda uma vivência e experiências adquiridas. Tenho fantásticos exemplos na minha família, que cada vez mais me fazem acreditar que, de facto, herdei uma boa genética. Já percebi que não tenho uma pele com tendência para rugas, flacidez, entre outros danos normais, consequência do passar dos anos. Contudo, não «durmo à sombra da bananeira» e faço por manter o meu aspeto sem procurar desenfreadamente o «elixir da juventude». Por isso, tenho os cuidados habituais. Para além de ter um estilo de vida saudável e alimentação cuidada, há três coisas das quais não prescindo: hidratação (água e cremes), limpeza e exfoliação de pele.

 

O que faz para se manter em forma?
Tenho a sorte de não ter tendência para engordar (embora saiba que muitos julguem que os modelos vivem de constantes dietas), prezo o estilo de vida e alimentação saudáveis. Sou filha de um atleta profissional e, por isso, o meu pai incutiu-me, para além da música, também a paixão pelo desporto. Todos nós, na família, fomos «obrigados» a praticar desporto. No meu caso, o desporto eleito foi a ginástica. Hoje, faço manutenção normal, com exercício físico, e sempre que posso faço exercícios de Ballet.

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